Se você está no Simples Nacional, provavelmente já ouviu a frase:
“Relaxa, o Simples continua”.
Continua mesmo — mas isso não significa que sua empresa vai atravessar a transição do mesmo jeito. A Reforma Tributária muda o “campo” onde a disputa acontece: crédito, precificação, caixa e contrato passam a decidir quem vende… e quem vira fornecedor descartável.
A seguir, vou te mostrar o que muda com IBS/CBS, por que o B2B tende a sentir mais, o que é o ano-teste de 2026, por que split payment é assunto de dono (não só de contador) e, principalmente, o que fazer agora para proteger margem e competitividade.
O que é IBS e CBS e por que isso mexe no Simples
A Reforma Tributária do consumo cria um modelo de IVA dual:
- CBS (federal)
- IBS (estadual/municipal) e, para alguns itens, um Imposto Seletivo (IS).
A promessa é simplificar, reduzir distorções e ampliar a lógica de crédito/não cumulatividade. Na prática, isso muda:
- Como o imposto entra na formação de preço
- Como o cliente (principalmente PJ) compara fornecedores
- Como o caixa da empresa se comporta (especialmente com mecanismos como split payment)
E aí vem o detalhe que muita gente ignora: o Simples é um regime “favorecido” para a empresa, mas não necessariamente “favorável” para o cliente PJ no novo mundo do crédito
Simples continua… mas o B2B muda de regra: crédito vira critério de compra
No B2B, o cliente compra olhando custo total. Com IBS/CBS, a tendência é o crédito entrar ainda mais na mesa de negociação.
A EC 132/2023 expressamente prevê a possibilidade de apropriação de créditos pelo adquirente não optante pelo regime único quando compra de optante — em montante equivalente ao cobrado via regime único, nos termos que a lei complementar detalhar.
Tradução em português de empresa:
- Se o seu cliente está fora do Simples (lucro presumido/real), ele tende a avaliar quanto de crédito aquela compra gera.
- Se o seu concorrente “entrega” melhor crédito (ou tem uma estrutura/estratégia mais eficiente), ele pode ganhar o contrato mesmo com preço nominal parecido.
Ou seja: o risco real não é só imposto. É competitividade
2026 é “ano-teste” (e é aí que as empresas inteligentes começam)
Muita gente acha que reforma é assunto de 2027 ou 2033. Errado.
A Receita Federal descreve 2026 como ano-teste da CBS e do IBS, com cobrança de referência (CBS 0,9% e IBS 0,1%) e compensações com valores devidos de PIS/Cofins, além de regras ligadas ao cumprimento de obrigações acessórias.
Em bom português: 2026 é o primeiro grande laboratório para:
- testar cadastros e emissões,
- revisar processos e rotinas,
- identificar onde a margem “vaza”,
- preparar contratos e precificação.
Quem usa 2025–2026 para arrumar a casa chega na transição jogando no modo profissional. Quem deixa para depois entra no modo “apaga incêndio”.
Split payment: o impacto no caixa que ninguém está precificando
Um dos pontos mais sensíveis do novo sistema é o split payment (em termos simples: parte do pagamento pode ser direcionada ao Fisco). A LC 214/2025 traz a disciplina do IBS/CBS e contempla mecanismos de arrecadação e operacionalização.
Na vida real, isso pode significar:
- menos capital de giro disponível (o imposto “não passa” pelo seu caixa como antes)
- pressão sobre prazos de recebimento e pagamentos
- necessidade de revisar política de crédito, cobrança e desconto
Se a sua empresa “respira” em cima do timing do imposto, a reforma pode cortar essa folga.
Principais dores do Simples na Reforma Tributária (e onde as empresas erram)
1) Precificação sem método
O erro clássico: “eu ajusto quando chegar”.
Na transição, quem ajusta tarde ajusta com prejuízo.
O que fazer:
- separar preço do serviço/produto, tributos, frete, despesas
- definir margem mínima por operação
- simular cenários 2026–2033 (conservador/otimizado/stress)
2) Contratos longos sem cláusula de recomposição tributária
Se você tem contratos recorrentes ou de longo prazo, precisa prever mudança tributária. Senão, você vira refém.
O que fazer:
- inserir cláusula de recomposição por mudança de tributos
- definir gatilho (mudança de lei, mudança de alíquota efetiva, alteração de regime)
- prever revisão periódica
3) Cadastro/ERP “mais ou menos”
Na reforma, “mais ou menos” vira “inconsistência” — e inconsistência vira custo: retrabalho, glosa, risco.
O que fazer:
- mapear cadastros (produtos/serviços, NCM/itens, natureza da operação)
- preparar ERP para convivência de regras na transição
- definir conferência e trilha de auditoria interna
4) Ignorar o efeito do crédito no B2B
A empresa do Simples pode ficar menos atrativa para PJ se não trabalhar estratégia.
O que fazer:
- mapear os 20 maiores clientes (quem é PJ, qual o peso do crédito, qual a sensibilidade a preço)
- revisar portfólio, condições e formato de cobrança
- avaliar estratégias dentro das possibilidades legais do novo sistema
Plano de ação (prático) para empresas do Simples — o que fazer agora
Passo 1 — Diagnóstico rápido (7 dias)
- perfil de cliente (B2B x B2C)
- produtos/serviços que mais faturam
- margens atuais e pontos de “vazamento”
- contratos principais e prazos de reajuste
Passo 2 — Mapa de operações (15 dias)
- como cada operação é tributada hoje
- onde estão riscos de preço/contrato/cadastro
- quais operações são críticas para B2B
Passo 3 — Simulação 2026–2033 (30 dias)
- 3 cenários: conservador / otimizado / stress
- impacto em margem e caixa
- decisões: preço, contrato, processos, cronograma de adequação
Passo 4 — Execução (ciclo contínuo)
- revisão de contratos prioritários
- precificação e política comercial
- ERP/cadastros e rotinas
- treinamento interno (comercial + financeiro + fiscal)
Checklist rápido (para você sair daqui com ação)
- Tenho claro meu perfil B2B/B2C
- Sei quais clientes PJ são sensíveis a crédito
- Tenho um mapa dos contratos (prazo, reajuste, cláusulas)
- Já rodei pelo menos uma simulação simples de margem/caixa
- Meu ERP/cadastro entrou em plano de adequação para 2026
- Tenho um cronograma até o ano-teste
Se você marcou “não” em 3 ou mais, seu risco não é “tributo”. É gestão.
Preparamos um Guia Prático de Adequação à Reforma Tributária para empresas do Simples, com checklist editável e plano de ação.
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