Reforma Tributária, patrimônio e família: por que governança deixou de ser “luxo” e virou sobrevivência

Se tem uma coisa que a Receita Federal faz com perfeição é esta: transformar informalidade em risco mensurável. E a Reforma Tributária está acelerando exatamente isso — não só na operação das empresas, mas principalmente na forma como famílias empresárias e detentores de patrimônio organizam bens, rendas e sucessão. 

O movimento é silencioso, mas é grande: aquilo que antes ficava restrito a “grupos gigantes” (holding, acordo de sócios, regras de sucessão, governança familiar) está chegando forte em produtores rurais, empresários e profissionais liberais que dependem de previsibilidade e querem dormir sem susto. 

O que mudou no jogo (e por que agora)

A Reforma do consumo caminha para um IVA dual — CBS (federal) e IBS (estadual/municipal) — com transição e aumento de exigências de conformidade e rastreabilidade. Em bom português: o sistema vai ficar mais transparente para o Fisco e menos tolerante com “organização por hábito”

Somado a isso, dois vetores estão puxando a reestruturação patrimonial para o centro da mesa:

  1. Cadastro Imobiliário Brasileiro (CIB): um grande banco de dados para organizar informações de imóveis urbanos e rurais no país — o que, na prática, amplia a capacidade de cruzamento e consistência cadastral sobre patrimônio imobiliário. 
  2. Tributação de dividendos acima de R$ 50 mil/mês (com regra operacional clara): a Receita Federal detalhou que, quando a distribuição mensal superar R$ 50.000,00 para a mesma pessoa física, há IRRF de 10% e a fonte pagadora informa isso na EFD-Reinf (evento R-4010) e confessa via DCTFWeb. 

Resultado: muita gente que mantém imóveis e renda de locação “no CPF” (por inércia, não por estratégia) começou a perceber que pode estar empilhando tributação e risco — e que organizar estrutura antes da fiscalização apertar costuma ser mais barato do que remediar depois. 


Reestruturar patrimônio não é “abrir holding e pronto”

Eu insisto nisso porque a internet vende “holding” como se fosse air fryer: apertou um botão, resolveu. (Se fosse assim, inventário não existia.)

A reestruturação patrimonial bem-feita tem três objetivos simultâneos:

  • Eficiência tributária dentro da legalidade (não “mágica”; técnica). 
  • Proteção e continuidade do patrimônio (blindar o que é da família, organizar o que é do negócio). 
  • Redução de conflito entre herdeiros com regra clara de sucessão e gestão (governança). 

E aqui entra a parte que muita família evita… até o dia em que vira briga: governança familiar.


Governança familiar: o “antídoto” contra o clássico roteiro da 2ª geração

Vejo isso com frequência: empresas familiares frequentemente quebram na 2ª ou 3ª geração quando não existe regra — quem entra, quem decide, quem pode ocupar cargo, como se distribui resultado, o que acontece em caso de divórcio, morte, incapacidade, saída de sócio, etc. 

Governança familiar não é burocracia: é um conjunto de combinados com força jurídica (e, muitas vezes, também pedagógica). Quando o combinado está escrito, assinado e coerente com a estrutura societária, o patrimônio para de depender de “bom senso” — e bom senso, em disputa familiar, costuma tirar férias. 


O caminho prático

Se eu tivesse que resumir em um roteiro de trabalho (sem ilusões e sem floreio), seria assim:

1) Raio-X patrimonial e de renda

  • Lista de imóveis, participações, aplicações, contratos de locação, dívidas, garantias e doações já feitas.
  • Mapa de renda: pró-labore, distribuição, aluguéis, ganho de capital, rendimentos no exterior (se houver).

2) Diagnóstico de risco e oportunidade

  • Onde a pessoa física está excessivamente exposta.
  • Onde a empresa está pagando “caro” por falta de estrutura.
  • Onde há risco sucessório (inventário, indisponibilidade, litígio).

3) Desenho de estrutura sob medida

Holding familiar pode ser uma peça — não o quebra-cabeça inteiro. O desenho pode envolver: reorganização de ativos, regras de administração, acordo de sócios, usufruto, cláusulas protetivas, e governança com ritos decisórios. 

4) Implementação e governança

Implementar não é registrar contrato e tchau: é colocar a estrutura para funcionar com rotinas e documentos que sustentem a estratégia.


Checklist rápido: sinais de que você deveria organizar ontem

Se você marcou 2 ou mais itens abaixo, eu pararia de adiar:

  • Tenho muitos imóveis no CPF e renda recorrente de locação. 
  • Distribuo lucros/dividendos e posso bater com frequência em R$ 50 mil/mês. 
  • Não existe regra de sucessão/gestão assinada pela família. 
  • Parte do patrimônio está “misturada” com a operação do negócio.
  • Existem herdeiros menores, herdeiros em conflito, segundo casamento, ou risco de litígio.
  • O patrimônio depende de uma pessoa só (e isso é um risco).
  • Tenho receio de inventário longo e caro (spoiler: o medo tem fundamento). 

Conclusão

A Reforma Tributária está fazendo o sistema “puxar” o contribuinte para a formalização — e, nesse contexto, reestruturar patrimônio e implantar governança familiar deixa de ser sofisticação e vira um instrumento de previsibilidade, eficiência e continuidade. Quem se antecipa tende a ganhar em controle, segurança jurídica e tranquilidade. 

Se você quiser transformar isso em ação, o próximo passo é simples: diagnóstico patrimonial + desenho de estrutura + governança (com documentação e implementação de verdade, não “modelo de gaveta”).

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